A Maersk implementa a política "Sem MRN, Sem Carga" a partir de setembro de 2026 – o que isso significa para importadores e agentes de carga na Europa?
A Maersk anunciou que, a partir de 30 de setembro de 2026, nenhuma carga será carregada sem um número MRN válido — um identificador único atribuído após a apresentação correta da declaração aduaneira ENS no sistema ICS2. A nova política „No MRN, No Load” aplica-se tanto à importação para a UE como ao trânsito pelo seu território. As empresas que não estejam preparadas para os novos requisitos documentais arriscam atrasos, custos de armazenagem e penalizações contratuais. Especialistas do setor alertam que muitas empresas não estão preparadas para integrar os sistemas de TI com a plataforma ICS2.

Uma das maiores empresas de transporte de contêineres do mundo anunciou uma política que mudará radicalmente as regras de acesso ao carregamento de mercadorias destinadas à União Europeia ou em trânsito por ela a partir de 30 de setembro de 2026. A Maersk está implementando a regra. "Sem número de referência de movimento, sem carga" — Nenhum contêiner será carregado em um navio sem antes obter um MRN válido do sistema aduaneiro da UE. Para empresas que não possuem processos eficientes de documentação aduaneira, este é um alerta que exige ação imediata.
De onde vem esse novo requisito? O ICS2 como base para a mudança.
A nova política da Maersk não surgiu do nada. É uma consequência direta da implementação, pela União Europeia, de um sistema avançado de controle de importações. Sistema de Controle de Importação 2 (ICS2)Esta plataforma de TI abrangente coleta dados detalhados sobre a carga antes mesmo de ela chegar às fronteiras da UE. O principal objetivo do sistema é fortalecer a segurança da cadeia de suprimentos por meio da identificação precoce de ameaças potenciais, tanto físicas quanto financeiras.
O ICS2 substitui e expande os mecanismos de declaração de importação existentes, introduzindo a exigência de apresentação do chamado Declaração de Resumo de Entrada (ENS) — uma declaração sumária de importação, que deve ser submetida ao sistema aduaneiro da UE antes do carregamento das mercadorias. Somente após ser processada corretamente é que o sistema gera Número de Referência de Movimento (MRN) — um número de referência de movimentação único que confirma que a remessa passou pela pré-liberação aduaneira e pode ser autorizada para transporte para dentro ou através da Comunidade.
Ao adaptar seus procedimentos operacionais a esses requisitos, a Maersk vai além do simples cumprimento das normas — ela as aplica diretamente aos seus clientes, eliminando a possibilidade de procedimentos de "ajuste" de última hora. É uma abordagem binária: ou você tem um MRN, ou seu contêiner permanece no cais.
24 horas que podem decidir toda a cadeia de suprimentos.
Um parâmetro operacional fundamental da nova política é o prazo. Uma declaração ENS completa deve ser submetida, processada pelo sistema aduaneiro e finalizada com a atribuição de um MRN válido. pelo menos 24 horas antes da chegada do navio ao primeiro porto de carregamento., onde novas regulamentações se aplicam. Isso pode parecer razoável, mas na prática da indústria, 24 horas podem passar rapidamente, especialmente quando a documentação está incompleta ou contém erros.
As consequências do não cumprimento deste prazo são imediatas e graves. A carga é removida da lista de carregamento da viagem e transferida automaticamente para o próximo navio disponível. Isso, por sua vez, desencadeia uma avalanche de custos e problemas:
- Atrasos na entrega — Adiar seu voo para o próximo pode significar um atraso de vários dias ou até mesmo de várias semanas, dependendo da frequência de conexões em determinada rota.
- Custos de armazenamento portuário — A carga que aguarda o próximo navio gera taxas de armazenagem no terminal, que podem ser significativas para mercadorias volumosas ou que exigem condições especiais de armazenamento.
- Risco de penalidades contratuais — Atrasos na entrega podem acionar cláusulas penais em contratos com usuários finais, transferindo o risco financeiro para o importador ou agente de carga.
- A necessidade de reenviar a declaração — Quaisquer declarações ENS rejeitadas devem ser corrigidas e aceitas novamente pela administração aduaneira antes que as mercadorias sejam formalmente liberadas para carregamento. Isso envolve tempo e trabalho administrativo adicionais.
É importante destacar que a política "Sem MRN, Sem Carga" abrange não apenas a carga importada diretamente para a UE, mas também mercadorias em trânsito — ou seja, aquelas entidades que apenas transitam pelo território da UE a caminho de países terceiros. Esta ampliação do âmbito de aplicação aumenta significativamente o número de entidades que devem adaptar os seus processos aos novos requisitos.
Requisitos técnicos detalhados - O diabo está nos detalhes
A Maersk publicou um conjunto de diretrizes para o envio correto de dados nas instruções de embarque. Cada um dos seguintes requisitos é necessário para que a declaração ENS seja processada corretamente e para a obtenção de um MRN.
1. Códigos HS - Classificação sem concessões
Cada item de carga deve ser marcado. Código HS válido de seis dígitos (Sistema Harmonizado), em conformidade com a classificação de 2022 da Organização Mundial das Alfândegas (OMA SH 2022). O código deve corresponder precisamente às mercadorias efetivamente transportadas — não pode ser aproximado ou genérico. A classificação incorreta para fins aduaneiros não é apenas uma questão processual; trata-se de uma potencial violação das normas aduaneiras que pode resultar em inspeções adicionais e sanções por parte das autoridades aduaneiras.
2. Identificação clara do status da entidade
Os clientes da Maersk devem declarar claramente se estão atuando como Proprietário Beneficiário da Carga (BCO) ou como Agente de CargaEssa distinção é crucial para atribuir corretamente a responsabilidade pela declaração ENS no sistema ICS2. A omissão dessa informação, ou o seu fornecimento incorreto, resultará no processamento incorreto da declaração.
3. Números EORI – o formato importa
O requisito absoluto é fornecer Números EORI válidos e ativos (Registo e Identificação de Operador Económico) para todas as entidades envolvidas. O número EORI deve ser escrito em letras maiúsculas, sem erros de pontuação, e deve estar ativo na base de dados da UE. Mesmo um pequeno erro de digitação ou um número expirado pode bloquear toda a candidatura. Para empresas que operam em vários países da UE, isto significa verificar regularmente o estado do EORI de cada entidade na cadeia de transações.
4. Dados estruturados do cliente
Os dados do comprador e do vendedor devem ser enviados. formato completo e estruturadoIncluindo: nome completo da empresa, endereço, cidade, CEP e país. Dados de endereço genéricos ou abreviados não serão aceitos. Essa exigência pode surpreender empresas acostumadas com a entrada de dados abreviados em sistemas de TI, especialmente aquelas cujos bancos de dados históricos de clientes não continham uma estrutura de endereços completa.
5. Descrições precisas da carga
As descrições vagas de produtos, prática comum durante anos, estão se tornando coisa do passado. A Maersk proíbe estritamente o uso de categorias vagas como "Acessórios" ou "Vestuário". Descrições precisas e inequívocas são obrigatórias — por exemplo: "Acessórios de banheiro em aço inoxidável" em vez de "Acessórios" ou Jaquetas masculinas de algodão nos tamanhos M a XL. em vez de "Vestuário". A precisão das descrições está diretamente ligada à exatidão dos códigos HS e é um elemento de documentação aduaneira consistente e verificável.
A Maersk não está sozinha – a indústria naval está mudando as regras do jogo.
Embora o anúncio da Maersk seja o mais impactante, vale ressaltar que outras companhias aéreas também estão tomando medidas semelhantes. Hapag-LloydA segunda maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo está implementando bloqueios operacionais semelhantes em um modelo "sem MRN - sem carga". Isso indica que a mudança é sistêmica e não uma decisão individual de uma única transportadora.
No contexto mais amplo da indústriarodoO número de agentes de carga está soando o alarme. Organização CLECAT — A Associação Europeia de Transitários, Despachantes Aduaneiros e Operadores Logísticos — aponta para barreiras significativas à implementação do ICS2 por parte dos operadores de mercado. Entre os problemas relatados estão:
- Deficiências na integração dos sistemas de TI dos transitários com a plataforma ICS2,
- Atrasos nas respostas dos serviços de apoio à alfândega,
- Escassez de fornecedores de software certificados para ICS2 em muitos mercados europeus.
- Dificuldade em adaptar os processos internos às novas exigências em um curto período de tempo.
Esses sinais indicam que o risco de interrupções nos primeiros meses após a entrada em vigor das novas regras é alto – especialmente para os pequenos transitários e importadores que não possuem departamentos de conformidade dedicados ou sistemas avançados de gestão de documentação aduaneira.
Perspectiva de Risco Empresarial – O que as Empresas Devem Fazer Agora?
Do ponto de vista da gestão de riscos operacionais e financeiros, a política "Sem MRN, Sem Carga" é um dos desafios regulatórios mais significativos para o setor de transporte e logística nos próximos anos. Empresas que ignorarem essa questão ou deixarem a conformidade para a última hora correm o risco de sofrer perdas significativas.
Risco operacional
Atrasos nas entregas não são apenas um problema logístico — eles também causam interrupções reais no planejamento de produção e distribuição no destino. Em setores que operam com modelos just-in-time, como o automotivo ou o eletrônico, um atraso de alguns dias na entrega de componentes pode paralisar toda a linha de produção. Os gestores da cadeia de suprimentos devem auditar seus processos de documentação agora e identificar todos os fornecedores e parceiros logísticos que possam não estar preparados para os requisitos do ICS2.
Risco financeiro
Os custos diretos dos atrasos — armazenagem portuária, tempo de inatividade dos contêineres, redirecionamento de carga — são uma coisa. Mais grave pode ser a penalidades contratuais resultantes do não cumprimento dos prazos de entregaVale a pena revisar os contratos existentes com os compradores em busca de cláusulas relativas a força maior e responsabilidade por atrasos decorrentes de formalidades alfandegárias. Nem todos os contratos preveem tais exclusões, e as novas regulamentações alfandegárias não isentam automaticamente a responsabilidade contratual.
Risco reputacional
Para empresas de logística e agenciamento de cargas, a incapacidade de garantir entregas pontuais no novo ambiente regulatório pode significar a perda de clientes para concorrentes mais preparados. Aqueles que investirem nos sistemas e recursos adequados desde o início obterão uma vantagem competitiva; aqueles que demorarem terão que lidar com a crise.
Etapas preparatórias práticas para empresas
Com mais de um ano restante para a entrada em vigor da nova política, as empresas ainda têm tempo para implementar as mudanças necessárias. Aqui estão as principais áreas que exigem ação:
- Auditoria de sistemas de TI — Verifique se o seu software de gestão de documentação de frete e alfândega está integrado à plataforma ICS2 ou se essa integração está planejada. Caso contrário, entre em contato com o fornecedor do sistema o mais breve possível ou busque uma solução alternativa.
- Verificação dos números EORI — Atualizar sistematicamente a base de dados de parceiros comerciais para garantir que possuam números EORI ativos. As empresas que ainda não se registaram como operadores económicos na UE devem iniciar este processo imediatamente.
- Revisão e atualização da classificação HS — Inventário de mercadorias e verificação dos códigos HS atribuídos para conformidade com o HS 2022 da OMA. Este é um processo demorado, mas absolutamente necessário.
- Treinamento para funcionários — Os departamentos de atendimento ao cliente, encaminhamento de mercadorias e documentação aduaneira devem estar familiarizados com os novos requisitos e compreender as consequências do não cumprimento das normas. Investir em treinamento agora evita gastos com gerenciamento de crises no futuro.
- Verificação de fornecedores e parceiros — garantir que todos os parceiros na cadeia de fornecimento (especialmente fornecedores de fora da UE) compreendam os novos requisitos e sejam capazes de fornecer os dados completos necessários para a declaração ENS.
- Análise de acordos contratuais — revisão das cláusulas de responsabilidade e força maior em contratos com destinatários e transportadoras em termos de riscos decorrentes de atrasos alfandegários.
Resumo - Hora de se preparar, não de esperar.
A política "Sem MRN, Sem Carga" da Maersk não é uma regulamentação distante que pode ser ignorada até o outono de 2026. Ela anuncia uma mudança fundamental na forma como o comércio marítimo europeu opera, exigindo ações preparatórias concretas agora. A implementação do sistema ICS2, que sustenta essas mudanças, está progredindo — e as companhias de navegação, ao aplicarem suas próprias regras operacionais, estão se tornando efetivamente os órgãos que verificam a prontidão de seus clientes para os novos requisitos.
Para gestores de risco e proprietários de empresas de transporte e logística, há uma conclusão fundamental: As empresas que não implementarem processos e ferramentas adequados até 30 de setembro de 2026 estarão expostas a sérias interrupções operacionais, perdas financeiras reais e ao risco de perda de clientes.No casamentorodoNum mundo onde a margem de erro nas cadeias de abastecimento está cada vez menor, a falta de um MRN (Número de Referência de Mercadoria) pode ser o elemento que compromete uma relação comercial cuidadosamente construída.
Também vale a pena monitorar o mercado de software aduaneiro e os esforços de organizações do setor, como a CLECAT, para negociar um período de transição ou suporte técnico das administrações aduaneiras. No entanto, contar com a possibilidade de adiamento da implementação seria uma estratégia arriscada. A experiência histórica com a implementação de sistemas aduaneiros na UE mostra que os prazos podem ser prorrogados — mas as empresas que não se prepararam para a mudança sempre perdem mais do que as que se prepararam.






